Año III
La Habana
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“CHAMAMENTO DE CARACAS”
ENCONTRO MUNDIAL
DE INTELECTUAIS E ARTISTAS
“EM DEFESA DA HUMANIDADE”


Caracas, dea 5 de dezembro de 2004

Reunidos em Caracas, berço do Libertador Simon Bolívar, os intelectuais e artistas de cinqüenta e dois países e diversas culturas coincidimos na necessidade de construir uma barreira de resistência perante a dominação mundial que hoje pretende-se impor.

Vivemos numa época onde a carta da ONU não é respeitada; a legalidade internacional foi quebrada e ficam abolidos princípios tais como o da não intervenção nos assuntos internos dos estados e o próprio conceito de soberania. As convenções de Genebra sobre prisioneiros de guerra e proteção da população civil foram violadas; os prisioneiros/as são torturados e vexados e foram criados cárceres sem lei no território usurpado de Guantánamo e do Iraque. A invasão e a devastação do Iraque, as ameaças contra outras nações do Oriente Médio, o martírio do povo palestino, as intervenções das grandes potências na África revelam a decisão de impor com sangue e com fogo uma ordem baseada na força.

Grande parte dessas agressões têm como objetivo apropriar-se das reservas de hidrocarbonetos, dos minerais, da biodiversidade e da água dos países menos desenvolvidos. Apoiamos o direito dos povos a manter o controle sobre esses recursos e a rejeitar as intervenções expropriadoras.

Os crimes contra o povo iraquiano demonstram até que ponto podem chegar a mídia e os governos que se proclamam defensores dos direitos humanos. A cidade de Faluja, hoje arrasada, ficará como símbolo da resistência heróica num momento trágico da história.

Parte deste projeto de dominação é o cobro de uma dívida externa ilegítima e a tentativa de anexação econômica da América Latina e do Caribe através da ALCA e outros planos e acordos lesivos para a sua independência e as suas oportunidades reais de desenvolvimento. Cresce o perigo de novas formas de intervenção e agressão perante o auge das lutas sociais e o processo de mudanças que vive a região. As noções de “guerra preventiva” e “mudança de regime”, proclamadas na doutrina oficial do governo dos Estados Unidos, erguem-se ameaçantes diante de qualquer país que não se submeta aos interesses imperiais ou que tenha uma importância estratégica. Um exemplo disso é a recente intervenção no Haiti. Hoje mais do que nunca é preciso mobilizar a solidariedade com a Venezuela, Cuba e com todas as causas populares do continente.

Além disso, expressamos a nossa solidariedade com os povos do Iraque, Palestina, Afeganistão e todos os que resistem à ocupação e à agressão imperialistas.

Um componente crucial da luta global perante as aventuras imperialistas, junto das forças que na Europa , América Latina e outras partes do mundo manifestaram-se contra a guerra, é sem dúvidas a mobilização dos sectores mais conscientes do povo estadunidense.

Condenamos o terrorismo mas nos opomos à utilização política que se faz da chamada “guerra contra o terrorismo”, e à aprovação fraudulenta de valores e conceitos como democracia, liberdade e direitos humanos. Rejeitamos que se chame de terrorismo as lutas de resistência dos povos e a guerra contra o terrorismo às agressões dos opressores.

Enquanto são dilapidados recursos incalculáveis na indústria militar, um outro extermínio silencioso e devastador está acontecendo a cada dia devido à fome, aos problemas sociais, à pobreza extrema, às enfermidades curáveis e às epidemias. O sofrimento que padecem os povos da África, Ásia e da América Latina e do Caribe, como resultado das políticas promovidas pelas instituições financeiras internacionais, é ignorado por aqueles que visam dominar o mundo e as elites globais que se beneficiam do saqueio neo-colonial . A ausência de programas para a solução real desses problemas é uma outra sinal da desumanização que caracteriza a nossa época.

Fazemos nossas as lutas dos trabalhadores(as), dos camponeses(as), dos desocupados(dos), dos precarizados(as), dos explorados(as), dos excluídos(dos), das mulheres, dos povos indígenas, afrodescendentes e originários, dos imigrantes, das minorias sexuais, as crianças sem amparo e das vítimas do comércio sexual. Apoiamos e nos comprometemos com as reivindicações de aqueles que defendem os seus direitos e a sua identidade perante às pretensões totalitárias e homogeneizadoras da globalização neoliberal.

Desprovida de níveis básicos de alimentação, atendimento médico, energia elétrica, moradia e água potável, uma grande parte da humanidade é sacrificada por um sistema que esgota os recursos naturais, destrói o meio ambiente e com o seu irracional esbanjamento consumista põe em causa a sobrevivência da vida mesma.

As grandes maiorias têm um acesso muito limitado à educação e estão excluídas do benefício que poderiam dar-lhes as novas tecnologias da informação e as de produção de medicamentos genéricos. O sistema econômico dominante provoca a mercantilização da maior parte da produção intelectual, privatiza-a e torna-a em um instrumento para perpetuar a concentração da riqueza e a domesticação das consciências. Urge impedir que a OMC, em sua política por transformar ao mundo em mercadoria, aniquile a diversidade cultural.

A concentração da propriedade dos meios de comunicação de massa transforma à liberdade de informação em uma falácia. O poder da mídia, ao serviço do projeto hegemônico, distorce a verdade, manipula a história, fomenta a discriminação em suas diversas variantes e promove a resignação perante o atual estado de coisas, apresentando-o como o único possível.

É preciso passar à ofensiva com ações concretas. A primeira delas, decidida neste Encontro, consiste em criar uma rede de redes de informação, ação artística cultural, solidariedade, coordenação e mobilização que vincule os intelectuais e artistas com os Foros Sociais e as lutas populares e garanta a continuidade destes esforços e a sua articulação em um movimento internacional “Em defesa da humanidade”.

É fundamental contra-atacar a propaganda dos centros hegemônicos fazendo circular as idéias emancipadoras através de todas as vias: emissoras de rádio e televisão, Internet, imprensa alternativa, cinema, meios comunitários e outras, e difundir os projetos de desenvolvimento e as experiências de participação e educação populares, para que possam se tornar em referentes da reconstrução das utopias que impulsionam a história.

A realidade venezuelana demonstra que a mobilização popular é capaz de conquistar e manter o poder para o povo e promover e defender grandes transformações em seu benefício. A nossa gratidão ao governo bolivariano, ao povo da Venezuela, e ao seu presidente, Hugo Chávez, por o seu compromisso com o futuro deste movimento internacional.

Nesta hora de especial perigo renovamos a convicção de que um outro mundo não é apenas possível se não imprescindível e nos comprometemos e chamamos a lutar por ele com mais solidariedade, unidade e determinação. Em defesa da humanidade, reafirmamos a nossa certeza de que os povos darão a última palavra.
 

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